Me traga Ketchup e eu lhe dou cinema.

 

Nos tempos áureos do cinema preto e branco, caldas e mais caldas de chocolate banhavam o figurino. Com a chegada da cor, aos poucos e de maneira bem tímida, o ketchup sobrepôs o predecessor. A timidez ao pouco foi substituída por excesso. Isso coincidiu com a aparição de Sam Peckinpah por trás da câmera, não poderia ser diferente, se compactuarmos que o cara foi um dos que se banhou no excesso. Um dos gênios por trás das vísceras saltitantes na sétima arte. O pai do Tarantino. O suprassumo da violência circense. E chega de elogios.

O fato é que todo o cinema se beneficiou com Sam, principalmente o western. O estilo, que teve seu ápice dentre 1930 e 1950, estava em declínio. Foi então que o diretor constatou que: uma geração criada entre sequelas da Segunda Guerra, caça a bruxas comunistas e “contraculturas”, estava preparada para mudanças regadas de sangue. Os mocinhos e vilões agora iriam degustar um bom molho de tomate. Chega de mortes teatrais, afinal, de tragédia grega já bastavam as tragédias gregas. Sam não queria um Billy the Kid X Pat Garret parecendo mais um Édipo X Laio. A equação era simples: bastava uma composição que envolvia ketchup, groselha, água e excesso. O excesso era o principal ingrediente; toda a extravagância dos figurinistas de Ney Matogrosso a favor do cinema másculo.

O sangue permeou por clássicos como Meu Ódio Será Sua Herança e Traga-me a Cabeça de Alfredo Garcia - com esses nomes não podia ser diferente. E por falar em herança, ela ficou com Tarantino, Oliver Stone e até Scorcese, em tons menos escatológicos. Quase participante da lista negra de Hollywood, Sam ainda conseguiu ter uma vasta filmografia, principalmente em qualidade. Empregou Charlton Heston e Steve Mcqueen, que nos orgulham de ser héteros, para o delírio de Laerte. Laerte que por sinal, poderia perfeitamente ser um antagonista dos filmes de Sam Peckinpah. O que seria do cartunista na mira de litros e mais litros de Ketchup Heinz?

Ah, bons tempos de Pecknpah. Ontem mesmo eu vi o grande Mcqueen socando uma mulher no filme Getaway, no contexto era a única solução, mas isso não caberia hoje. Não caberia hoje junto com personagem machista (na nova definição da palavra) de Dustin Hoffman em Straw Dogs. Não caberia hoje com um bando de chatices a que somos submetidos. Bons tempos sem papas na língua. Bons tempos em que uma metralhadora poderia dizimar um vilarejo mexicano sem que um intelectual cunhe mexicanofobia. Bons tempos em que cinema era cinema, sangue era ketchup e Sam Peckinpah era Sam Peckinpah.   

Tá para nascer o dia.

Tá para nascer o dia. 

Em que essa expressão seja algo a mais do que

espere sentado ou no Dia de São Nunca,

São Nunca está cansado de esperar o dia dele.

 

Um dia desses em que me sinta satisfeito com essa tal vida

e esse tal verso que acho tosqueira

e esse tal de acordar as 7:00

e essa tal de lata de sardinha esperando ser aberta.

 

Um dia desses que eu acorde mais geração Beat

ou John Wayne naquele filme,

That will be the day

e esse vai ser o dia. 

 

O bom e velho John abre a lata de sardinha

e entram japoneses, indianos, nordestinos,

engomados e desengomados,

loiras e morenas,

gays e héteros.

 

Pobre John, olha com desconfiança

é aquele olhar western

é aquele olhar perdido no tempo

é aquele olhar tá para nascer o dia.

 

Pobre John 7:00 da manhã

Pobre John 6:00 da tarde.

Pobre cheiro de pobre,

Pobre cheiro de rico,

Pobre cheiro que não sei mais qual é.

 

Tá para nascer o dia John.

Não mais diligências,

Mais cavalos na garagem,

Mais dólares no bolso,

Mais um dia de São Nunca,

Mais um dia de

Tá para nascer o dia. 

Alguns negros, um bode e o fim do humor na publicidade.

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“ O comercial postado na internet mostra uma mulher e um policial em uma delegacia. O policial pede à mulher, que foi vítima de uma agressão e usa muletas e colete ortopédico, para que ela identifique seu agressor entre um grupo de suspeitos enfileirados, formado por homens negros e um bode.”

Esta é a sinopse de um comercial, não filme de humor negro, retirada do site da BBC. O tal comercial é da Mountain Dew e foi eleito o mais racista (até então não concordo) e misógino de todos os tempos. Causou a ira de usuários da rede no mundo todo. E por incrível que pareça atingiu a mim, que sempre pregou a liberdade de expressão e  total ausência de barreiras limitantes no humor. O problema do comercial está justamente nessa premissa: é um comercial. Ele, primeiramente, vende alguma coisa. Passa uma ideia, um conceito ou posicionamento. E esse posicionamento, dessa vez com razão, pode ser combatido por feministas, grupos minoritários ou qualquer pessoa que preze pela moral, o que quer que essa palavra signifique. Apologia é uma palavra erroneamente empregada na grande maioria dos protestos banais dos ativistas de sofá. Mas dessa vez eu vou proferir o termo a ser evitado: Apologia. Apologia clara ao estrupo. Apologia clara a banalização do mal, como diriam aqueles caras da Escola de Frankfurt.

Se estivéssemos sentados na poltrona apreciando o melhor desenho de todos os tempos, South Park, tudo bem. Além de esperar esse tipo de humor, a filosofia moderna ainda pode justificar o roteiro como uma crítica a sociedade, ou apenas, uma exposição de fatos engraçados que não tem compromisso nenhum em passar adiante um conceito fixo, além do puro escracho. Daí a ser condolente com um bode que é protagonista de uma campanha publicitária e diz: “Não abra a boca, quando sair daqui eu vou te pegar/comer’’ não dá. Não dá primeiramente por um simples motivo: esse tipo de humor sem freio em uma propaganda vai ser usada pelos mesmos ativistas, feministas e grupos minoritários citados acima, para generalizar e dar ênfase a necessidade de frear outros comerciais ( de cerveja por exemplo). E quem sai perdendo? Marcas como Diesel que sempre brilham em comerciais destemidos. Agências como a Wieden Kennedy que levam a publicidade ao patamar de arte. Nós, que achamos graça em tudo mas não deixamos de ter princípios. Poderia até cagar de rir em um stand up do Rafinha Bastos e suas piadas machistas, confesso que o fiz. O problema é que Rafinha Bastos não é porta-voz de nada.

A Moutain Dew não sabe, mas deu o primeiro passo rumo a ditadura do politicamente correto. Justamente porque será usada como exemplo por acéfalos em situações futuras:

 “Lembra daquele comercial misógino de refrigerante? Esse comercial de cerveja não está tão longe disso, ele incentiva o estrupo.”

Femista radical interpretando do jeito que quer um filme.

 “Lembra daquele comercial de refrigerante que mostrou negros na prisão? Esse comercial que mostra o árabe em um camelo é preconceituoso”

 Ativista mulçumano tacanha minutos antes de tirar mais um filme do ar.

Captou a mensagem? Porque até Rolando Lero, o mestre do blasé e do blá, não conseguiria justificar esse humor em uma ação publicitária. Nem mesmo um Bill Clinton dos argumentos poderia convencer plateias sobre uma a inocente piada sobre estrupo ali contida. É meu amigo, em breve não poderemos apreciar comerciais ditos sexistas sobre futebol, cerveja e refrigerantes. Tudo isso, porque uma marca passou dos limites.

 Sim Mountain Dew, você deu a eles o que queriam. “Tá vendo aquela garota estrupada? é culpa da publicidade”. Essa sentença vai aumentar diariamente até a total ausência de piadas e humor nos comerciais. Sim Mountain Dew, é bom preparar roteiros de comerciais varejistas porque em breve você e todas as empresas vão precisar.  

A ditadura dos narizes escorrendo.

Existem poucas cenas mais deploráveis do que uma pessoa assoando nariz incessantemente em público. Ônibus, metrô e avenidas movimentadas são palco para esse gesto de pessoas desinibidas. Ok se você for sutil, não ok se for tirar um trator do nariz. Na Europa eles fazem isso. Homens, mulheres, meninos e meninas, todos tiram tratores do nariz em público. Ô continente avançado. Lá eles fazem o que querem sem se importar com terceiros, ou quartos. Os amantes de protestos e manifestações “contramidiáticas”devem se espelhar nesse povo. Afinal, nunca nenhuma dançarina do Faustão ou protagonista de novela fez isso. E se não apareceu na Globo é porque é do caralho. É esse o discurso pseudo-intelectual moderno: “Vamos todos assoar o nariz em público, somos livres para fazer o que quisermos.”

Para que feministas lutarem para amamentarem crianças de 5 anos no metrô porque alguém apareceu na Ana Maria Braga dizendo que isso é errado. Para que baterem em marcas de cremes para depilação porque querem seus sovacos peludos e buços mexicanos, isso é muito clichê. Vamos além, vamos transformar tudo em uma grande banalidade, em uma grande luta para podermos assoar o nariz em público. Por que um estudante de ciências sociais da PUC pregar a liberdade aos usuários de Crack ? Mesmo sabendo que a mídia disse que o Crack vicia e logo é uma inverdade, existem lutas mais cool. Esse discurso de que “se é diferente é certo” tá muito certinho, vamos bagunçar. Se você é homem mas se sente mulher, lute para poder usar o banheiro feminino - isso é diferente. Banheiro feminino para mulheres e masculino para os homens é muito senso-comum, é muito padrão globo de qualidade. Coisa de quem não assoa o nariz em público. E vá além, exija que todos sintam a vontade com a sua presença, do contrário é algum tipo de fobia. Isso, isso mesmo, fobia. Essa palavra é a melhor ferramenta para disparar contra quem for avesso a suas convicções. É implacável e cai bem com qualquer prefixo. Que absurdo, impedirem você de usar o banheiro feminino só porque você não é mulher geneticamente falando, lógicafobia pura. Se for mulher, lute para fazer xixi em pé, é diferente, é do caralho. Se quiser assoar o nariz em público, faça, as pessoas acham feio, então é bonito. E digo mais, usar lenço é muito senso-comum, enfie o dedo. Enfie o dedo e exija que além de respeitarem, as pessoas, desfilem elogios e achem sexualmente atrativo. Se não acharem, é logicamente resultado de padrões de beleza pré-estabelecidos. Onde já se viu, uma mulher ter sovaco peludo e não receber elogios? Onde já se viu uma mulher ter bigode e não agradar o Brad Pitt. Brad Pitt preconceituoso e machista. Aposto que ele não acha bonito tirar meleca em público, tss, que convencional. Mas coitado, deve ter sido influenciado pela mídia.

Por isso, caro leitor, não seja como ele, não seja como eu. Seja Laerte. Porque se você não for Laerte, você é Feliciano. Não existe linha tênue meu amigo. Linha tênue seria o respeito, e respeito é pouco. Não vem lado a lado com ditadura. E ditadura é difamada pela mídia, logo é do caralho. Portanto, lute e lute como Stalin, Hitler e Pol Pot. Lute para mais prefixos para a palavra fobia. Lute para mijar aonde quiser, e se possível masturbar também - levar ao extremo é o nirvana do intelectualismo. Lute para todo mundo achar o feio bonito e vice versa, isso é sair do senso-comum. E sobretudo, lute para assoar em público e ser aplaudido, tire tratores do nariz e seja venerado, porque é diferente, e se é diferente, repita comigo: é bom. Se por um acaso, algum pobre desalmado vítima de muita novela das nove e William Bonner, achar todo esse protesto descabido e sem pé nem cabeça, processe esse maldito racista, homofóbico e machista. Como ousaria alguém discordar desse nobre pensamento libertador? É esse o tipo de pessoa que deve ser rechaçada do mundo em que seus filhos viverão - e aliais, quando tiver um bebê e um idiota perguntar o sexo da criança responda: não sei, ele ainda não aprendeu a assoar o nariz. 

Tatuagem e Sotaque Mineiro.

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“Vamos Falar de mulher?” 

Encarno um grande amigo que costumava proferir isso quando a turma desviava o foco para assuntos de menos importância. Vou além e encarnarei o grande Xico Sá. O Homero da literatura máscula. Amado por cabras-machos e possivelmente detestado pelas feministas. O fato é que depois de um longo hiato e busca por assuntos relevantes, foi no meu alívio diário que encontrei a inspiração para hoje. Não em um livro sobre filosofia de 400 páginas, ou naqueles escritores russos que o corretor automático não me permite escrever. Xico Sá e suas mulheres, isso sim é interessante. Mas o que falar sobre mulher, que o cara já não tenha falado? O que pode ultrapassar o clichê barato das revistas de mulher pelada, ou o brega do romantismo de Lord Bryon? Talvez nada. Mas o que importa. É sempre bom falar de mulher, seja com os amigos, seja sozinho ou com um número tímido de leitores. E por que não puxar o gancho de Lord Bryon? Ele, que teve a vida dos poetas do século XIX. Regada de drogas “extintas”, desilusões amorosas e muito Rock And Roll, sem guitarras.

 Por mais que seja do caralho fazer poemas sobre mulheres e conquistar o sexo oposto com palavras, coitado de Bryon, tão limitado a inglesas sem sal. Dentes amarelados e espartilhos anti-toque. Coitado de Bryon, sem a possibilidade de se deslumbrar com uma mulher mineira. Uma mulher com sotaque de cortar os pulsos, e olha que de corta os pulsos esses caras entendiam. A mulher mineira de BH, Juiz de Fora e afins. Não muito pra lá do interior, onde o charme se confunde com o dialeto local. Conheci uma dessas, na verdade várias dessas, mas uma em particular que vale a descrição. Aquele pavor a palavras completas, como diria Drummond, só você mesmo vira “sócemesmo”. Aquele diminutivo que fica feio nas cariocas: churrasquin, bonzin, e por aí vai. E claro, aquelas expressões que você tem que jogar no google depois. “Eu e você vai dar dó amanhã”- que eu confesso não entender bem, mas julgando pelo que aconteceu no dia seguinte deve ser coisa boa. Outra ode que faltou no século XIX foi às mulheres tatuadas, ou melhor, às TODAS tatuadas. Porque se é para fazer uma, faça logo 10. Naquela época as tatuagens eram, “unisexmente” falando, de cadeia. Pobres em vida, em traços e cores. Não haviam Kat Von D’s da vida. Muito menos Megan’s Fox. Reservada a dançarinas de Saloon, esse quê a mais não arrancava elogios e vísceras de nós, pobres homens. Arrisco a dizer que a maior invenção de Deus (na verdade as primeiras coisas que me fizeram ter certeza de um criador) foram a tatuagem e o sotaque mineiro. Xico Sá costuma dizer que a mulher é a parte pelo todo - mostra um certo amadorismo, grande Xico. Parte pelo todo só se for aquela com covinha e sorriso bonito, olho azul e cabelos loiros, ou um simples corpo de “modelos”de automobilismo. Porque, meu caro, se a mulher for tatuada e carregar o sotaque de minas, ela é completa, é o todo pelo todo. Algo que Deus sabiamente não inseriu na Europa do Século XIX, senão não teríamos os grandes mestres da poesia: Bryon, Blake, Keats teriam se matado antes mesmo da primeira linha. Antes de passar a pena na tinta. Na verdade, acho melhor deixar Deus fora disso, pensando bem, Mulher tatuada e com sotaque de Minas só pode ser criação do Demônio. E convenhamos, nessa o Demo mandou bem.